As Pussy Riot são - e tomando
momentaneamente de empréstimo um dos lemas dos Clash - a única banda que
realmente interessa. Quase não importa o que diz o tribunal. As três
mulheres das Pussy Riot - um explosivo e irritante cruzamento entre um
grupo musical e um anónimo movimento de dissidentes russos - já
conseguiram, de uma maneira muito significativa, vencer a farsa de
julgamento a que estão a ser sujeitas em Moscovo (e cuja sentença será
conhecida dia 17). Cada dia do seu julgamento por "vandalismo motivado
por ódio religioso" chamou a atenção da comunidade internacional para a
repressão paranóica na Rússia de Vladimir Putin.
As Pussy Riot entalaram Putin nos cornos de um
dilema: ou o seu Governo condena a banda e aumenta ainda mais o seu
estatuto de mártires, ou recua e reconhece que acusar o trio mascarado
devido a um cacofónico protesto musical na Catedral de Cristo Salvador
que chamou a atenção da aliança da Igreja russa com o regime de Putin
terá sido sempre um erro. Três dos cinco membros da banda enfrentam
agora a possibilidade de passar sete anos na prisão, o que está a causar
um inesperado repúdio internacional. Na semana passada, antes de um
encontro com o primeiro-ministro britânico David Cameron, Putin terá
admitido que preferia recuar.
Isto é algo que não era suposto
acontecer. Para começar, os dissidentes não se dão bem na Rússia
"putinista"; depois, o punk rock - o filho ilegítimo, mais sujo, mais
esperto e mais irritante do rock"n"roll - normalmente não vence. O
movimento punk tem um longo historial de aspirações a rebentar com
governos corruptos e autoritários, multinacionais e outras estruturas de
poder internacional. Mas não tem um longo historial de sucessos.
Assim,
o punk rock decidiu-se por objectivos políticos mais atingíveis, menos
globais: normalmente, protestos localizados e atrair atenções e
despertar consciências. As Pussy Riot, que ainda há poucos meses eram um
grupo obscuro, são agora um fenómeno internacional: as três detidas
foram consideradas prisioneiras de consciência pela Amnistia
Internacional e a banda tornou-se o ai-jesus dos intelectuais russos,
que há tanto tempo sofrem e que agora se juntaram em defesa das três
artistas. E se bem que ninguém fale do grupo pela sua música, uma
olhadela para a história dos anteriores sucessos geopolíticos do punk
rock mostra que as Pussy Riot já os ultrapassaram - e talvez tenham dado
ao punk rock um futuro como uma força global para a justiça e a
liberdade.
Não demorou muito até o que o punk se afastasse do
niilismo sem futuro dos Sex Pistols, o lendário grupo inglês da segunda
metade dos anos 70 que basicamente iniciou o punk rock. Os Clash
rapidamente viraram a atenção do punk para lutas globais. Joe Strummer,
uma das forças criativas dos Clash, colocou o punk rock a cantar acerca
da Guerra Civil de Espanha, as classes exploradas da Jamaica, o martírio
do poeta de esquerda chileno Victor Jara, e mesmo, num disco intitulado
Sandinista!, sobre as vítimas do comunismo soviético e chinês.
Na
Irlanda do Norte, os seus contemporâneos Stiff Little Fingers cantaram o
aparecimento de um tipo diferente de revolta - a banda chamou-lhe uma
"força anti-segurança", dado que o grupo se opunha às milícias locais
que apoiavam os britânicos - em Alternative Ulster. O punk fracturou-se
em incontáveis subgéneros obscuros e espalhou-se a nível mundial, mas um
tema comum manteve-se: resistência face ao poder global arbitrário e
brutal, algo que pode ser percebido em todo o lado, desde o punk "crust"
dos britânicos Discharge ao hardcore melódico dos canadianos
Propagandhi e ao folk abrasivo dos Against Me!, da Florida. O punk
canalizou a angústia juvenil para um catecismo antiguerra, antigoverno e
anticapitalismo.
Mas essas ambições não alcançaram resultados
geopolíticos palpáveis. Talvez o ponto alto da importância geopolítica
do punk tenha vindo de uma banda britânica que já tinha deixado para
trás o seu período mais criativo de finais da década de 70. Pioneiros de
um tipo de punk particularmente agressivo - reconhecível pela militante
e imparável batida da bateria -, os Crass definiam-se pela anarquia,
pelo pacifismo e pelo humor (por vezes de forma totalmente isenta de
humor). Mas foi necessária uma guerra a sério, nas ilhas Falkland, para
que os Crass, então já longe do seu período áureo, se metessem em acção.
Um single, tipicamente cáustico, perguntava à primeira-ministra
Margaret Thatcher, no título, How does it feel (to be the mother of a
thousand dead? [Qual é a sensação (de ser a mãe de mil mortos)?] Contra
todas as expectativas, chegou ao primeiro lugar do top independente, e
levou o deputado conservador Tim Eggar a tentar levar os Crass a
tribunal, sob a alçada de uma lei antiobscenidade. Escapando às
autoridades, os Crass engendraram uma partida que prenunciava o sucesso
das Pussy Riot. Em 1983, a banda, de forma secreta, cedeu a jornalistas
crédulos uma cassete que supostamente revelava uma conversa entre
Thatcher e o Presidente norte-americano Ronald Reagan. Parecia confirmar
a paranóia esquerdista acerca de ambos os líderes conservadores:
discutindo a situação nas Falkland, Reagan parecia aconselhar moderação a
uma Thatcher sedenta de sangue; Thatcher punha Reagan a divagar sobre
sacrificar a Europa numa disputa nuclear com os soviéticos.
A
cassete rapidamente se elevou a incidente internacional. O Departamento
de Estado e a CIA afirmaram que era uma manobra de desinformação
soviética: "Este tipo de actividade encaixa-se no padrão de
falsificações que o KGB soviético faz circular, apesar de normalmente
envolverem documentos falsos e não fitas magnéticas", podia-se ler numa
declaração oficial do Departamento de Estado. O jornal inglês Sunday
Times publicou um artigo intitulado Como o KGB enganou a imprensa
ocidental. Após terem marcado a sua posição e os governos terem ficado
embaraçados, membros dos Crass admitiram à agência Associated Press que
tinham sido eles, e não os soviéticos, os arquitectos do embuste.
Quase
30 anos depois, a agitação já foi esquecida. Os Crass são mais
recordados pelos seus dois primeiros álbuns, The Feeding of the 5000 e
Stations of the Crass, do que pelas chamadas "cassetes do Thatchergate".
Para pessoas como eu, que continuam a levar a sua música demasiado a
sério, isso infelizmente diz muito acerca da relevância geopolítica do
punk rock.
Desde então, e partindo do princípio que o punk tem
objectivos políticos - e tem havido sempre dentro da cena punk um
contingente considerável que discorda dessa proposição -, eles têm-se
manifestado de duas formas: protesto e desafio local. A lendária cena
punk hardcore de Washington nos anos 80 simboliza a primeira forma. No
Verão de 1985, um ano que os punks ao longo dos Estados Unidos relembram
como o "Verão da Revolução" da capital, punks locais como Guy Picciotto
da banda Rites of Spring levaram percussões para a porta da embaixada
da África do Sul para incomodar os representantes do regime do
apartheid. "Pensámos em injectar alguma espontaneidade", recorda
Picciotto, que se sentia insatisfeito com os protestos habituais e
repetidos de então.
Jeff Nelson, co-fundador da seminal editora
hardcore de Washington Dischord Records, encheu paredes da zona no Natal
de 1987 com posters a ridicularizar o procurador-geral Ed Meese. O
Ministério da Justiça declarou que a propaganda pública era "ofensiva", a
sua origem desorientou o jornal Washington Post. Pouco depois, os
Fugazi - a banda seguinte de Picciotto e principal nome da Dischord -
dariam concertos no National Mall, parque entre o Capitólio e o
Monumento de Washington, denunciando a Guerra do Golfo.
A outra opção tem sido a acção localizada - quer
para mudar comunidades locais ou para alterar a forma como as pessoas
que são expostas ao punk rock vêem o mundo. Em cada cidade americana que
tem uma cena punk - ou seja, em todas as cidades americanas - pode-se
encontrar os seus membros em parques, normalmente nos fins-de-semana, a
cozinhar comida vegetariana para distribuir grátis a quem vier, ao que
juntam panfletos contra a guerra, num ritual político denominado Food
Not Bombs. Em alternativa, outras bandas têm trabalhado para
dessacralizar o próprio punk, uma subcultura esmagadoramente branca,
masculina e heterossexual. Uma das melhores bandas dos anos 90, Los
Crudos, de Chicago, era composta apenas por elementos de ascendência
latina e cantavam exclusivamente em castelhano, provocando assim a
juventude branca e levando-a a questionar o que é ser um outsider
cultural; o seu vocalista, Martin Sorrondeguy, mais tarde fundou os Limp
Wrist, um caso raro: uma banda hardcore assumidamente homossexual.
Todos
estes esforços significam imenso para os milhões de pessoas cujas vidas
têm sido enriquecidas pelo punk, que, no seu melhor, instila uma ética
de responsabilidade pessoal e auto-suficiência que os de fora podem
achar difícil de conciliar com a estética caótica do punk. (Afinal de
contas, quando salas grandes não aceitam que a nossa banda toque, temos
nós que construir uma rede de caves e sofás para a digressão.)
Mas
não têm significado muito para os temas internacionais - reconheçamos,
um objectivo quase impossível para algo que continua a ser um movimento
de jovens. Os protestos punk têm-se tornado uma espécie de fim em si
mesmos - Protest and Survive, como cantavam ironicamente os Discharge -,
uma medalha de mérito para ganhar ou um ritual para os punks
protegerem. Nas suas letras, o punk ainda afronta a guerra e as
injustiças - Asesinos, dos Crudos, é sobre o apoio dos Estados Unidos
aos ditadores da América Central, e continua a impressionar -, mas, como
acontece com a maioria dos artistas, o seu impacto geopolítico é
marginal. O lema da veterana editora anarco-punk de Minneapolis Profane
Existence é - de forma reveladora e de algum modo patética - Making Punk
a Threat Again (Tornar novamente o punk ameaçador).
As Pussy
Riot poderão não inverter esta tendência. O punk continua a ser
essencialmente um fenómeno do mundo ocidental, o que significa, tal como
os Propagandhi diziam, que "reconheço a ironia de que o sistema a que
me oponho me permite o luxo de morder a mão que me dá de comer". Os
punks que na realidade não vivem sob governos autoritários não enfrentam
os mesmos riscos que os membros das Pussy Riot. Se o punk rock se
mobilizou em força contra a Guerra do Iraque em 2003, editando álbuns
para angariar fundos para organizações de activistas e organizando
concertos contra a guerra no National Mall, não atraiu a atenção de
George W. Bush, as Pussy Riot, pelo contrário, claramente atraíram a
atenção de Putin.
Mas talvez seja necessário um punk visionário
para efectivamente reconhecer o potencial das Pussy Riot. Na revista de
cultura alternativa Dazed & Confused, Tobi Vail disse sobre a banda
russa: "O seu método de protesto depende do anonimato. Elas criaram um
método de protesto cheio de possibilidades e que pode ser utilizado a
nível global, ultrapassando as fronteiras internacionais. Putin pode
encarcerar membros do colectivo, mas como pode ele impedir a
possibilidade de novos membros se juntarem ou impedir que o movimento se
propague para além da Rússia?"
Se há alguém que sabe acerca da criação de um
método de protesto repleto de possibilidades e aplicável para além das
fronteiras internacionais, esse alguém é Vail, uma das figuras mais
inspiradoras que o punk rock já produziu. A banda em que tocava bateria,
Bikini Kill, transcendeu as suas raízes punk para se tornar naquele que
pode ser considerado o grupo de rock feminista mais importante de
sempre. O movimento "riot grrrl" que as Bikini Kill ajudaram a forjar
representou uma linha de demarcação para as mulheres que exigiam
representação numa cultura underground exageradamente masculina, e
rapidamente se expandiu a nível global. As cáusticas apresentações ao
vivo das Bikini Kill eram eventos políticos em miniatura. Elas
instigaram as mulheres a que ousassem ser quem elas quisessem ser, e
exigiram que os homens se confrontassem com os seus privilégios, mais do
que se congratularem por serem suficientemente abertos para irem ao
espectáculo.De facto, consideremos aquilo que Vail percebeu. As Pussy
Riot actuaram de forma anónima numa igreja de Moscovo, as caras cobertas
com balaclavas coloridas. Podiam ser qualquer pessoa, e isso poderá ser
a inspiração para as próximas Pussy Riot. Por coincidência, quando o
seu julgamento começou, o fanzineMaximumrocknroll, a publicação mais
influente do punk, publicou a sua edição de trigésimo aniversário.
O
único artigo acerca do impacto que o punk continua a ter a nível
internacional debruçava-se sobre as Pussy Riot - um implícito
reconhecimento que aquelas três mulheres não apenas envergonharam Putin e
apontaram para o seu banditismo, mas também redimiram as aspirações de
uma cultura de protesto global.
Spencer Ackerman, ex-baterista
em várias bandas punk de que ninguém ouviu falar, é redactor principal
na Wired.com, cobrindo a área da segurança nacional