domingo, 27 de junho de 2010

há muito tempo que estava sozinho. saia do trabalho e apanhava o comboio sempre há mesma hora. a mulher de cabelos compridos sentava-se sempre no banco da frente. durante a viagem olhava-a de cima a baixo, não sabia como lhe dizer que a amava. nem sequer tinham falado mas ele sabia que o que sentia por ela era amor. de vez em quando ela também o olhava, mas discretamente, ao ponto de ele não reparar. usava sempre óculos escuro para não se notar em que direcção olhava. ele todos os dias sonhava com ela. nos dias seguintes sentiu o impulso de ir falar com ela mas este era menor que o medo de ser rejeitado. no trabalho o chefe que o chateava todos os dias convidou-o para beberem um copo. saiu de lá perdido de bêbado e seguiu de imediato para o comboio. encontrou-a e disse:
olá
olá, eu conheço-te?
acho que sim. vêmo-nos tdos os dias no comboio mas não nos falamos
e deviamos?
acho que sim afinal somos apenas pessoas. animaizinhos que andam por aqui a tentar ser felizes. e a maior parte das vezes nem o somos
mas somos animais diferentes porque pensamos
sim mas por vezes também pensamos demais. deviamos nos guiar mais pelos instintos e apenas sobreviver
e ai como ficaria a cultura? não achas que ela é necessária?
apenas como fonte de catarse. acho que a cultura é sobrevalorizada, não alimenta o corpo
mas alimenta a alma
a partir desse dia os dois foram sempre a falar e nunca mais se sentiram sós.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

abutres

os abutres rondam a presa
procuram saber se ele está morta
incapaz de se defender dos necrófagos
ferida e inocente antes da morte
e os abutres procuram mais uma vitima

com os seus pescoços compridos e cheios de veias
avistam as suas vitimas ao longe
com olhos de lince e garras de demónio
procuram sacear os seus apetites

malditos abutres! cheiram a carne putrefacta
e a morte
são apenas o principio da degradação

com bicos pontiagudos comem os mortos
e nem sabem que o que comem não está vivo
para eles apenas não se mexe
não dá luta e comem e comem...
abutres sujos com penas à volta do pescoço
e garras de diabo voltam ao ataque
ao morto que não se mexe
e não dá luta

quarta-feira, 23 de junho de 2010

o prazer do trabalho

no cantos da noite andam como sombras
tentam-se se esconder das luzes dos carros
fazem fuga quando vêm os pirilampos
os seus inimigos mortais
e vêm ao de cima em busca de algo

os homens dizem que é o prazer
e elas dizem que é o trabalho
como se tratasse de um comum emprego
8 às 17 com uma hora de almoço
subsidio de desemprego e segurança social

a doença

a doença come-te por dentro
sentes que te devora
e até gostas que te coma

o problema é que a doença não é fisica
é apenas na cabeça
e isso faz doer mais

mas como não sabes evitar a dor
(só evitando pensar)
julgas que depois passa
mas ainda continua e cada vez será pior

terça-feira, 15 de junho de 2010

deus

ontem vi deus
estava numa esquina duma rua escura
tinha umas ligas e um baton rasca
também calçava saltos altos
tinha um ar pouco lavado

perguntei-lhe onde esteve este tempo todo
ele disse-me que agora não podia
que estava a trabalhar
e ainda tinha muito para chupar

domingo, 6 de junho de 2010

vómito na bambolina

bukowski vomitou na bambolina. prestou-se mais uma vez a descarregar o liquido viscoso do seu estômago nos passeios alverquenses. instituido na arte de beber e intrigado pela cor da corrosidade do liquido dentro de si resolveu meter tudo cá para fora pois estava farto do escárnio da sociedade que o fazia infeliz.

VIVA BUKOWSKI QUE NÃO SE ENTREGA AO MARASMO DO VIVER HABITUALMENTE NA PODRIDÃO DA POPULAÇA!

rangendo os dentes e, de vez em quando, serrando os punhos em contraste com a passividade das multidões alienadas pelos idolos e medos. trincando os lábios para não deixar fugir o sabor da vingança tal como ela deve ser feita. vingança e revolução, dois termos que tudo dizem e nada exprimem. bukowski a vomitar na bambolina é a verdadeira revolução!
levantou a camisola para os outros verem a flacides do ser e entre dobras de gordura demonstrou que a vida é mais do que a imagem e que todos nós temos que vomitar essa loucura.

VIVA BUKOWSKI! VIVA A REVOLUÇÃO!

do vómito sai o sangue das visceras do bêbado. demasiado bêbado para entender que este era o seu sangue. fruto da sonolência do vinho e do figado que já não pode com tanta agressão. corroido até ao tutano pela força do vinho que passa nas suas veias e interrompe o sofrimento.

FORA COM BUKOWSKI! MATEM-NO DEPRESSA! ELE É A DEGENERAÇÃO DA FORÇA QUE CADA HOMEM CARREGA EM SI! MATEM-NO E DEPRESSA! SEM PIEDADE PELA FRAQUEZA DO VICIO!