sexta-feira, 15 de maio de 2009

amor

teresa ama júlio. júlio ama teresa. júlio, após 15 anos de casamento, teve um acidente de carro e ficou paraplégico. a partir desse dia morreu para a vida. passava os dias a olhar para a janela com uma garrafa de whisky na mão e costumava gritar: mas porque estou aqui? mais vale alguém meter fim ao meu sofrimento!
teresa de braços cruzados e com um olhar furioso costumava dizer: não fales dessa maneira, olha que podias ter ficado bem pior!
pior? como? já nem consigo ir à casa de banho sozinho. aliás a maior parte das vezes nem preciso de lá ir faço tudo aqui mesmo.
teresa sabia que júlio jamais iria andar e isso, de alguma forma, deixava-a furiosa. na noite do acidente júlio tinha saido para "experimentar outros pratos" como gostava de dizer. por vezes teresa pensava que tinha sido castigo de deus. nesse instante benzia-se e dizia para si própria: deus não é vingativo e ele não merecia isto!
numa dessas vezes júlio entrou na sala e viu-a no chão a deitar sangue da cabeça. tinha batido violentamente na parede enquanto gritava insanamente não! não! não!
júlio aproximou-se e agarrou-a ternamente como alguém que agarra um pássaro caido do ninho apenas para o voltar a meter no sitio a que pertence. beijou-a enquanto o sangue escorria pela testa e chegava aos lábios dos dois, selando um amor que já não tinha volta. olharam-se nos olhos durante alguns instantes até virarem as costas como se nada tivesse acontecido.

teresa também costumava olhar pela janela, mas para olhar para daniel que chegava sempre há mesma hora. numa conversa ele tinha confessado que estava farto do seu trabalho e que o tédio o invadia todas as noites. confidenciou-lhe que costumava recorrer aos serviços de uma prostituta para tentar matar pela raiz os males da solidão.

teresa resolveu ir ter com ele nessa noite. saiu sorrateiramente de casa, enquanto júlio via televisão, e tocou na casa ao lado. a porta abriu-se e, antes que pudesse dizer alguma coisa, teresa beijou-o na face. daniel respondeu com um beijo nos lábios arrebatando-a do chão. já não era a primeira vez que a tinha visto olhar para si do alto da sua janela. puxou-a para dentro.

nos dias a seguir sucedeu o mesmo. sempre que júlio estava a ver televisão teresa ia até casa do vizinho. estava lá durante meia hora e voltava ofegante com o cabelo despenteado. uma noite júlio supreendeu-a quando entrava. olhava-a de cima a baixo. sua puta! como és capaz?!
teresa olhava para o chão. as palavras, intermitentes, começaram a sair-lhe.
eu... tenho necessidades. não percebes... não consigo estar sem...
júlio desviou o olhar e afastou-se.

no outro dia à noite teresa escovava o cabelo e preparava-se para sair. júlio apareceu e na sua cabeça apareciam manchas negras com sangue pisado.
gostava de te ver com esse homem.
porquê?
já não sei amar, gostava de ver alguém te amar.
teresa encaminhou a sua cadeira até casa de daniel e tocou. alguém abriu mas não era daniel, era outro homem a quem tinha emprestado a chave. tudo se passou como o habitual...

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